quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Férias



Se eu pudesse, eu moraria atrás dessas vidraças, de onde só se avista o mar e os pesqueiros. De onde posso sair sob um sol morno e entrar no mar, para me sentir uma invasora no mundo que é só de peixes e aves, e siris e outros animais que eu nem sei nomear. Vidraças onde posso ficar protegida da chuva, vendo a areia correr com a água, prestando a atenção ao trabalho dos pescadores (que resistem à chuva, porque quem trabalha com água não a teme, venha ela de baixo ou de cima) e perdendo de vista a linha do horizonte, que dá lugar a uma coisa só, embaçada, que é ao mesmo tempo céu e mar.

Via revolucionária



Revolutionary Road

Não sei se foi por causa de uma certa TPM ou se o filme mexeu comigo mesmo, mas o fato é que chorei horrores, sozinha, tarde da noite, assistindo ao Revolutionary Road, que aqui no Brasil levou o nome de Foi Apenas Um Sonho (já entregando o final do filme, embora eu não ache isso tão ruim).
Eu, como fã da Kate Winslet, já tinha assistido o The Reader, e achei um filme bom e sério. Imaginava que o Revolutionary Road iria por um caminho mais leve, mais “suggar-coated”... Ora, eu estava muito enganada e não esperava um filme tão sério e ao mesmo tempo tão sutil. Enquanto o The Reader trata da questão do antisemitismo, por um viés bem interessante, o Revolutionary Road trata de um assunto muito mais cotidiano, muito mais enraizado no dia a dia das sociedades burguesas, e ao mesmo tempo tão sério quanto a questão do antisemitismo, mas muito menos abordado na mídia: a estrutura familiar.
Basicamente, Revolutionary Road narra o cotidiano de uma família que, para fugir do conformismo e dos costumes burgueses, resolve fazer planos mirabolantes de se mudar para Paris, plano que inverteria toda a lógica de funcionamento do que se entende como família e da estrutura básica familiar, que sempre foi amparada pelo machismo e pela exploração da mulher. Enquanto os planos da família estão de pé, tudo corre bem: a esposa (Kate Winslet) se sente feliz, o marido (Leonardo Di Caprio) recebe promoções no trabalho, as crianças ficam felizes. No entanto, aos poucos os planos vão se desfazendo e... bem, acho que não é bom seguir contando a historia, pois mesmo que eu não preze tanto o mistério do final dos filmes, tem gente por aí que preza. Fica aí então a lacuna.
De qualquer forma, o filme rende umas boas catarses e lágrimas, principalmente quando se é mulher, filha, mãe, funcionária, esposa. O filme deixa bem claro, de forma sutil, que há algo de podre, algo que não funciona bem dentro da lógica e da estrutura familiar pequeno-burguesa. Conformismo diante da infelicidade em um emprego sem-graça. Desconforto diante da imobilidade que a mulher sente quando está fadada a cumprir o papel de mãe e de esposa. A preocupação de seguir o modelo patriarcal que foi instituído há anos e que perdura até hoje. Aceitação, por parte da mulher, do destino (palavra bonita para função instituída) que lhe foi reservado: servir ao marido e criar os filhos.
É claro que, no filme, esses caminhos pelos quais a mulher é obrigada a trilhar são muito menos flexíveis do que hoje em dia (o filme se passa na década de 50, Estados Unidos). Hoje, com alguns avanços na luta feminista, a mulher consegue ter um pouco mais de escolha diante dos caminhos que se apresentam a ela. Mas a escolha ainda é muito estreita, as alternativas são poucas e as consequências dessas escolhas são muito severas. A frase de Simone de Beauvoir ainda vale para os dias de hoje: “Não se nasce mulher; torna-se...”.
Ah, e a última cena é genial e cortante. Me deu calafrios e me senti muito mal, não só pelos personagens da trama, mas pelas mulheres em geral, pelas que eu já conheci, pelas que são minhas amigas, pelas não são minhas amigas, pelas que escreveram e lutaram, pelas que resistem nos lares, pelas que trabalham em empresas e prostíbulos e pelas que cuidam de seus filhos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cienfuegos vive!

Flores ao mar para Camilo Cienfuegos.



Camilo Cienfuegos Gorriarán (6 de Fevereiro de 1932 - 28 de Outubro de 1959) foi um revolucionário cubano, nascido em Calabazar de Sagua. Participou de atividades clandestinas contra o ditador de Cuba Fulgencio_Batista e foi um importante protagonista da Revolução Cubana. Ao lado de Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro, Camilo era um dos principais líderes da Revolução.

Morreu vítima de um acidente de avião. Durante um voô de Camaguey à Havana, o avião de Camilo desapareceu no oceano, o que causou grande impacto em toda a população, que durante vários dias procurou algum vestígio do líder guerrilheiro, sem obter sucesso.

Rapidamente, Cienfuegos se tornou um dos mártires da revolução. Prova disso é que todo dia 28 de Outubro, as crianças cubanas jogam flores ao mar, em sua homenagem.
Che Guevara, que se tornou um dos seus grandes amigos, dedicou a ele seu livro, "Guerra de Guerrilhas".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

apesar de minha resistência a certas tecnologias ser bastante alta (desisiti de ter celular, faço meu café jogando eu mesma a água fervente no pó e prefiro mil vezes uma TV a um computador), não sou daqueles que veem a Internet como coisa do capeta. Acho que, juntamente com o evento de 11/09, a Internet (ficando claro que me refiro à web 2.0) está instaurando mudanças muito muito significativas. Mais do que imaginamos.
o Did you know? é só um vídeo de impacto, nada demais... mas as informações que eles carregam dão uma boa medida de em que ponto está a parte do mundo que tem acesso a essas modernas ferramentas tecnológicas ("parte do mundo" porque, quando se fala de Internet, parece até uma coisa homogênea e global... mas a inclusão digital tá longe de ser algo realmente efetivo).



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Saramago blogueiro

Ah, Saramago, se você tivesse me dito que era tão bom blogueiro, eu tinha lido seus livros antes...

http://caderno.josesaramago.org/

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"E como já dizia Galileu, isso é que é amor"

Jorge Ben à l'Olympia é uma das melhores coisas que já baixei. O disco original é o registro que o Jorge Ben fez no Olympia em 1975. Muito muito bom.



o link pra baixar e sair sambando: http://sharebee.com/fe0cca01

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Como se adaptar ao ambiente corporativo em uma semana ou menos



Depois de ler por aí livros incríveis, como alguns de Paulo Coelho (ele sempre está no topo das listas) e Augusto Cury, me senti muito animada a também escrever um texto com dicas, relacionadas àquilo que eu conheço (que está muito aquém dos mistérios do Universo que só esses dois mestres conhecem), que talvez possam ajudar algumas pessoas por aí. Essas dicas são sobre algo bem menos complexo, mas não menos interessante: o ambiente corporativo e burocrático das grandes empresas.

1. Deixe sua personalidade em casa – Não é interessante para a empresa, e muito menos para o gerente, ter que lidar com um mosaico de diferentes personalidades, experiências e expectativas. E é menos interessante, ainda, que essas personalidades falem sobre suas expectativas. O ideal é que a empresa tenha um quadro de funcionários homogêneo e neutro, impessoal, e mudo.

2. Evite falar de coisas pessoais – Essa dica está intimamente ligada à dica número 1 (é na verdade uma conseqüência dela). Não conte sobre o seu porre no fim de semana, nem sobre a viagem à casa de sua tia, nem sobre a doença do seu cachorro, nem sobre o baseado que você costuma fumar. Um contato pessoal desse tipo corre o sério risco de ser interpretado como um desabafo pesado e chato, que não cabe ao ambiente de trabalho. Se quiser conversar, arranje amigos, ora.

3. O gerente tem sempre razão – Aqui a máxima do meio comercial se inverte. Em vez do cliente, é seu chefe que tem sempre razão. E não importa se ele tem o QI de um anelídeo, ou se você entende de coisas que ele não entenderá durante toda a vida dele. Também não importa se a sua idéia é boa, ou se você tem argumentos razoáveis. O que nos leva à dica número 4.

4. Nunca, nunca argumente – O ambiente corporativo não é um lugar propício para discussões. Ao contrário, é um ambiente em que o fluxo de idéias se dá em um único sentido, seguindo a hierarquia básica da empresa. Qualquer outro movimento pode ser interpretado como um desafio a essa hierarquia e, cá pra nós, sabemos muito bem que, por mais moderna que seja a empresa, sempre há a necessidade de se seguir uma hierarquia (trabalhe você na Google ou na fábrica de botões do seu tio).

5. Não deixe que descubram que você é inteligente – Pessoas que pensam e demonstram saber um pouco além de Max Gehringer são consideradas arrogantes e, pior do que isso, isoladas até que se ponham novamente em seu lugar. Ô raça metida.

6. Não discuta política. Esqueça-se que você tem uma opinião e jamais defenda posições políticas que não sejam aquelas vigentes na mídia e no mainstream. Se você é anarquista, evite contar. Ou pelo menos disfarce e diga que você é comunista, porque isso pode gerar algumas piadas, descontrair o ambiente e integrar os colegas.

7. Não tenha religião. Acredite em um Deus à sua maneira, mas não defenda uma religião específica. Se alguém tentar te convencer de que a teoria de Darwin é furada e de que o creacionismo é uma idéia muito mais convincente, apenas balance a cabeça pra cima e pra baixo, concordando, principalmente se a pessoa com quem você estiver conversando for hierarquicamente superior a você. Mas aqui também vale a dica número 1. Não assuma isso como algo pessoal. Concorde, mas não se comprometa. E, se a sua religião for daquelas menos prestigiadas, como o Budismo ou Hinduísmo, evite ao máximo falar sobre isso. E se você for ateu, que Deus salve sua alma.

8. Não defenda minorias. Você não está neste ambiente para emitir opiniões ou para se posicionar, seja política, filosófica ou culturalmente. Você está neste ambiente para trabalhar de forma neutra, sempre alinhado à filosofia e à visão da empresa. Se a empresa adota uma mentalidade pequeno-burguesa (o que acontece em 99,99% dos casos), evite falar sobre samba, Carnaval, voto nulo. Não fale sobre manipulação de mídia ou sobre abismos sociais. Não critique o establishment. Não se meta com o status quo. Crie uma persona cujo maior objetivo na vida é acumular tanto dinheiro que você não distinguirá mais a diferença entre ter e ser.

9. Corra a maldita maratona – Grandes empresas frequentemente se preocupam com o bem-estar e a integração de seus colaboradores. Por isso, é comum a alta direção instituir eventos como jogos olímpicos, gincanas, desafios esportivos, doação de sangue, vacinação coletiva, maratonas. Essas últimas são particularmente interessantes, por se tratar de uma atividade com a qual você pode ganhar muitos pontos junto ao seu gerente, sem muito esforço. Por isso, não importa se você fuma desde os 14 anos ou se você não quer se prestar a papel de idiota. Simplesmente faça um esforço e corra a maldita maratona.

10. Procure outro emprego.

Ps: como encontrar um novo emprego não é tão fácil quanto gostaríamos que fosse, uma dica valiosa é o seriado The Office. É uma das poucas oportunidades de rir, em casa e no escritório, de pequenas coisinhas que podem ser bastante desanimadoras.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Em uma época em que a preguiça de escrever e a falta de tempo para acessar a internet se unem contra minhas boas intenções de manter este blog atualizado, o remédio que encontro é juntar as várias coisas e idéias que tenho tido desde o último post (a long ago), transformá-las em pequenas pílulas de fácil digestão e deixá-las todas juntinhas aqui. Voilá.

A fotógrafa-caçadora
Depois de um tempo com a fotografia como uma idéia fixa na minha cabeça, começo a ver tudo o que está à minha volta como projetos, cenários, planos, focos, luz. E tudo o que encontro -- seja um casal de mãos dadas na rua, uma árvore meio seca, um parque de diversões – vira uma possibilidade de foto. Eu olho bem, analiso as condições, se estou em uma boa posição, se ninguém vai me atrapalhar, espero a hora certa, a luz certa, o momento certo para capturar o que está à minha frente para um meio de duas dimensões. E disparo.


Bob continua afinado
Depois de passar por vários estágios de timbre de voz, Bob Dylan parece agora estar assumindo uma voz meio rouca, e perdendo aquele tom anasalado que ele tinha antes. No disco atual, Together through life, as músicas estão melhores que as do disco anterior. Os instrumentos são bem diferentes, e a pegada de blues sempre presente. A primeira música do álbum, Behind here lies nothing, é a que me fez comprá-lo e ouvir todas as outras.



Che, el argentino
Talvez tanta espera tenha feito com que eu me decepcionasse um pouco com o filme. Eu esperava um pouco mais do roteiro e da fotografia; e Benicio Del Toro também não me convenceu muito. On the other hand, o personagem do Camilo Cienfuegos me pareceu tão carismático e verdadeiro quanto o mito do rebelde barbudo, e isso o filme retratou bem, fazendo jus a uma figura que, apesar de ter sido importantíssima para a Revolução Cubana de 1959, não recebeu o mesmo reconhecimento que Fidel e Che.

Sonho de férias
Em contagem regressiva para as férias, me vêm também à cabeça aqueles devaneios, planos de viagem maravilhosos e tão além das minhas possibilidades financeiras. Só pra sonhar um pouco, montei na minha cabeça um top Five dos lugares que eu ainda preciso conhecer:
1. Oaxaca
2. Havana
3. Macchu Picchu
4. Buenos Aires
5. Salvador
Acorda, Thaís.

sábado, 4 de julho de 2009

Um e-mail antigo

Adoro remexer coisas antigas, cartas, postais, fotografias. Sou o tipo de pessoa que guarda mil coisas inúteis, tipo guardanapos especiais, caixinhas, botões, entradas de cinema que foram especiais... enfim, todo tipo de cacareco. E, melhor do que guardar tudo isso, é tirar uma tarde para reler o que está guardado, rever fotos antigas, lembrar de gente que ficou lá atrás e ver como a gente mudou de lá pra cá.
Andei fazendo uma dessas revisitas ultimamente, só que de forma virtual. Reli um blog antigo que tive enquanto ainda estava na faculdade, e ele acabou se revelando um raio x de quem eu era naquela época. Pouco autoconfiante, muito ingênua. Muito romântica e muito idealista. E, ao contrário do que geralmente acontece, encontrei coisas interessantes ali.
Entre essas coisas interessantes, encontrei um e-mail antigo (embora o conceito "e-mail antigo" possa ser bem relativo), muito agradável aos olhos e à cabeça. Não fala de nada específico, mas ele todo soa como um leve desabafo de uma pessoa amiga, inteligente, sensível e culta. O tipo de pessoa que eu gostaria que me rodeasse todos os dias. O tipo de gente que eu gostaria de ter comigo numa noite qualquer na minha cozinha bebendo vinho e conversando sobre política, história, cinema e literatura...

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Eu ainda não escrevi do que eu gostaria. E de verdade, não estou fora da Matrix, estou dentro dela, todos estamos na verdade.
Eu sou uma pessoa de fino trato que sabe sentar e usar os tempos
verbais, mas francamente não dou a mínima pra muita gente porque
ninguém paga minhas contas. Nunca me vi como você descreveu porque acho q vivo me segurando demais pra não falar, não agir, não magoar as pessoas.
Ás vezes acho que a ignorância e a superficialidade são dádivas, mas
eu nunca as possuí e sempre me chamaram de pessimista quando abria a
boca na sala de aula (imagine: uma sala de aula de mestrado com
pedagogas discutindo aprendizagem e eu pedia a palavra pra dizer que
o governo só quer a educação inclusiva pra gastar menos, que não é
viável gastar com crianças que babam e manter escolas pra elas, não
serão adultos produtivos mesmo) mas não sei fumar maconha cor de
rosa e nem me espelhar na experiência dos outros pra ficar livre de
mim.
A vida não é fácil. Mas não tem procon pra ela.
Abraços,
E.